Sem sentido para escrever

Sempre gostei de escrever e, em muitas épocas da vida, escrevi mesmo. Desde que a internet apareceu, em meados dos anos 90, abracei com entusiasmo, primeiro, a ideia de ter homepages, depois, blog e, finalmente, perfil no Facebook; enfim, a perspectiva de que o que eu escrevesse estaria em alguma perspectiva de possibilidade partilha e diálogo. Desde principalmente o pós-pandemia, porém, algo mudou. A escrita saiu de minha vida. Por que será?

Um motivo sem dúvida foi a mudança de foco das redes sociais e minha tomada de consciência de quão estéreis elas eram no quesito da criação. Quando as antigas homepages foram destronadas pelos blog, eu lamentei, porque sentia que a lógica do blog era de mais efemeridade e de menos planejamento textual, mas mantive por muitos anos o Blog do Lentz, cuja praticidade, paradoxalmente, acabou abrindo portas para que eu escrevesse habitualmente. Quando os blogs começaram a ser suplantados pelo Facebook, lamentei também, por motivos semelhantes aos de antes. Resisti, teimei, mas acabei sendo tragado pela nova plataforma, na qual não obstante continuei escrevendo algumas coisas. O blog acabou de fato sendo engolido por isso, até porque o provedor onde eu o hospedava  interrompeu o serviço, e nessa época transformei uma seleção de textos tanto do Blog do Lentz quando do Facebook em meu livro, o "Horário livre", proporcionando o que acreditei ser um desfecho digno para essa fase de minha relação com a escrita, que coincidia com o desfecho de outras fases em minha vida também. À medida que o Facebook cedeu lugar ao Instagram, a produção de textos minimamente elaborados, do outrora famoso "textão", perdeu o sentido. O Facebook, com todas as suas falhas, permitia não só postagens significativas, mas comentários organizados e hierarquizados, que abria a possibilidade debates multidirecionais e simultâneos, com muita interação entre os participantes. O Instagram, aparentemente direcionado para objetivos mais frívolos e para a limitação das interações entre os usuários, enterrou essa prática. Ademais, por ser usado prioritariamente pelo celular e não permitir edição de comentários, trouxe entraves à fluidez da escrita e a correções.  

A ascensão do chamado bolsonarismo teve forte impacto nesse apagamento da escrita também, claro. A virulência dos ataques, a rasidão das discussões, a irracionalidade, o fanatismo, o exclusivismo de certas pautas, o mal-estar gerado por esse contexto, tudo isso contribuiu para um apagamento do espaço das redes sociais. 

Aquela configuração da internet como um universo de produção textual desapareceu, e, com isso, também a escrita que se produzia nesse contexto. Para quem eu escreveria? Não que antes eu tivesse em mente a ilusão de ser lido ou que fosse esse o fator determinante, mas havia uma idealização de leitor, uma figura abstrata, conceitual, que de alguma forma orientava a produção. Essa figura desapareceu. Ademais, muito daquele interação no Facebook servia como alimento para a produção, e isso também desapareceu. É mais difícil escrever sem que as ideias estejam circulando. 

Esse, então, foi um fator. Outro, ironicamente, foi a ida para o CEFET, que poderia e deveria ter tido o efeito oposto, como se esperava. 

Antes do CEFET, minha produção acadêmica era praticamente toda voltada à produção de material didático, o que muito me angustiava. Em meus vinte e cinco anos da escola particular, produzi materiais incríveis, que me exigiram muito estudo e pesquisa, mas que não tinham diretamente a ver com a lógica dos artigos e apresentações em eventos que me aguardava no CEFET. Eu sabia, claro, que esse mundo existia e tinha vontade de participar dele, chegando a vagamente idealizar algumas possibilidades nesse sentido. Mas a verdade é que a lógica de trabalho era outra, e o espaço para investimento nessa direção era muito pequeno. Eu o preenchi da melhor forma que pude fazendo mestrado e doutorado. Para a realidade da rede particular, isso já era heroico. 

Quando fui para o CEFET, tive a esperança de poderia enfim me dedicar um pouco mais a esses projetos, mas o que aconteceu foi um pouco diferente do que eu imaginava. Em primeiro lugar, percebi-me mais apegado à rotina de produção de material didático do que imaginava. Sem produzir material, não sentia que estava trabalhando. Não sabia lidar com o tão sonhado tempo que a diversificação da rotina proporcionou: ou o dedicava a outros projetos ou o desperdiçava mesmo. Confirmou-se de imediato o que eu sempre soubera: que eu não tinha repertório, consistência, afiliação ou sistematização teórica para simplesmente sair produzindo artigos, diferentemente de meus colegas, que, embora consideravelmente mais jovens, já vinham de uma trajetória toda construída nesse sentido. 

Outro fator, associado a esse, é a modéstia de minha contribuição. O que teria eu a dizer? Não me sinto à vontade escrevendo para meus pares. Na verdade, simplesmente não sinto que tenho algo relevante a dizer a eles.   


(texto em produção ainda)

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